Neste artigo
Um vídeo circula nas redes com o rosto e a voz de um apresentador conhecido, endossando uma promoção, um cartão de crédito ou uma oportunidade de investimento que ele nunca ofereceu. O golpe não mira um funcionário de empresa nenhuma, mira diretamente o público em geral, e usa como isca justamente a confiança que esse rosto público já construiu ao longo de anos. Esse é o padrão que trataremos aqui, o deepfake que não busca autorizar uma transferência interna, busca fabricar uma narrativa falsa capaz de enganar milhares de pessoas ao mesmo tempo, com dano reputacional que recai tanto sobre a vítima direta do golpe quanto sobre o executivo ou celebridade cuja imagem foi sequestrada.
Este artigo detalha como esse vetor específico funciona, por que ele é diferente da fraude de pagamento corporativa que já cobrimos em outro guia, os casos internacionais e brasileiros mais relevantes dos últimos dois anos, o custo reputacional que ultrapassa o prejuízo financeiro da vítima direta, e como executivos e empresas podem monitorar e reagir a esse tipo de ataque.
O Novo Vetor: Narrativa Falsa, Não Só Fraude de Pagamento
Já tratamos em profundidade, em outro artigo, como voz clonada e deepfake de vídeo são usados em fraude corporativa e BEC: o alvo ali é um funcionário do financeiro, que recebe uma ligação ou participa de uma videoconferência com a voz ou o rosto falsificado de um executivo da própria empresa, e autoriza uma transferência que nunca deveria ter saído. É um ataque interno, direcionado, com um alvo específico e um objetivo financeiro imediato.
O golpe de endosso fabricado que tratamos neste artigo é primo daquele, usa a mesma tecnologia de base, mas o modelo de ataque é diferente em pontos essenciais. Aqui o alvo não é um funcionário treinado para reconhecer um pedido suspeito, é o público em geral, que não tem nenhum motivo para desconfiar de um vídeo compartilhado nas redes sociais. O objetivo não é uma transferência única e discreta, é uma campanha de massa, veiculada como anúncio pago, capaz de atingir milhares de pessoas ao mesmo tempo. E o dano reputacional recai duplamente, sobre quem perde dinheiro acreditando no golpe, e sobre o executivo ou celebridade que teve a imagem e a voz usadas sem qualquer autorização.
Como Funciona o Golpe de Endosso Fabricado
A mecânica do golpe segue um roteiro relativamente padronizado, que se repete com pequenas variações em praticamente todos os casos documentados nos últimos dois anos. O primeiro passo é a produção do material sintético: a partir de vídeos e áudios públicos já disponíveis, entrevistas, programas de TV, aparições em eventos, o golpista treina um modelo de clonagem de voz e de rosto e produz um vídeo curto em que a figura pública parece endossar um produto, uma promoção ou uma oportunidade de investimento. A qualidade desse material, em 2026, já é suficiente para enganar um espectador desatento em uma rolagem rápida de rede social.
O segundo passo é a distribuição paga. O vídeo fabricado é veiculado como anúncio programático em redes sociais, muitas vezes usando a própria estrutura de segmentação da plataforma para atingir o público mais propenso a acreditar na promessa, geralmente pessoas em busca de renda extra ou de uma oportunidade financeira rápida. O terceiro passo é o site clonado, que reproduz a identidade visual de uma marca conhecida ou de um veículo de imprensa legítimo, dando um verniz adicional de credibilidade ao formulário onde a vítima é convidada a depositar dinheiro ou informar dados de cartão. A combinação dos três elementos, vídeo fabricado, anúncio pago e site clonado, é o que separa esse golpe de um simples boato: ele é desenhado como um funil de conversão, exatamente como uma campanha de marketing legítima seria.
Casos Internacionais Recentes
O salto de qualidade da tecnologia de deepfake também elevou o risco dentro das próprias empresas, sem qualquer relação direta com endosso público. Em fevereiro de 2024, em Hong Kong, um funcionário do financeiro participou de uma videoconferência com vários "executivos" da empresa, todos deepfakes, e autorizou transferências que somaram US$ 25,6 milhões, o caso mais conhecido de fraude corporativa via deepfake de vídeo. Em março de 2025, em Singapura, um diretor financeiro perdeu US$ 499 mil em uma chamada de Zoom na qual toda a liderança presente era, na verdade, deepfake. Esses dois episódios pertencem ao universo de fraude de pagamento interna que detalhamos no artigo sobre deepfake e BEC, e servem aqui apenas para ilustrar até onde a tecnologia já chegou, o mesmo nível de qualidade que engana um diretor financeiro treinado é o que hoje sustenta os golpes de endosso público que são o foco deste artigo.
O padrão de endosso público fica mais claro em dois casos que não envolvem nenhum funcionário nem transferência corporativa. Em junho de 2024, uma live no YouTube usando deepfake de Elon Musk arrecadou mais de US$ 50 mil em criptomoeda em apenas duas horas, prometendo dobrar qualquer valor enviado a um endereço de carteira, um golpe clássico de "duplicação" hospedado atrás de um rosto e uma voz sintéticos convincentes o bastante para passar despercebidos durante uma transmissão ao vivo. Outro caso emblemático envolve o jornalista financeiro britânico Martin Lewis, cuja imagem foi usada em um deepfake veiculado como anúncio pago no Facebook, endossando um suposto esquema de investimento chamado "Quantum AI". Uma vítima que acreditou no vídeo perdeu £140 mil. Lewis, que não tinha nenhuma relação com o produto, precisou emitir alertas públicos recorrentes para se distanciar do golpe que usava seu nome.
Vale registrar, sem cravar um número exato, que a cobertura do setor de segurança vem apontando crescimento expressivo no uso combinado de deepfake de áudio e vídeo em fraudes financeiras de forma geral, tanto no vetor interno de BEC quanto no vetor de endosso público tratado aqui. A tendência é a mesma nos dois casos: a barreira técnica para produzir um deepfake convincente caiu, e o volume de golpes que dependem dessa tecnologia tende a subir enquanto essa barreira continuar caindo.
Casos Brasileiros: Apresentadores e Figuras Públicas
No Brasil, o padrão de golpe de endosso fabricado já atingiu diversos apresentadores de TV nos últimos dois anos, quase sempre com o mesmo roteiro: vídeo deepfake, anúncio pago em redes sociais e site ou formulário falso para captura de dados ou dinheiro. Em janeiro de 2025, uma quadrilha foi presa por aplicar um golpe usando deepfake do apresentador Marcos Mion, que anunciava uma falsa promoção da rede de restaurantes Outback, caso que a Justiça brasileira tratou como um dos primeiros a resultar em prisões efetivas ligadas a esse tipo de fraude.
Outro caso amplamente documentado pela Agência Lupa, agência de checagem de fatos, foi o golpe apelidado de "Resgata Brasil", que usou um vídeo com deepfake de ao menos quatro apresentadores, incluindo Rodrigo Faro e Ratinho, anunciando uma falsa indenização por vazamento de dados pessoais, um artifício eficaz porque explora o medo real que a população já tem em relação a vazamentos de dados amplamente noticiados. Em abril de 2025, o próprio Ratinho voltou a ser alvo, dessa vez em um golpe que usava sua imagem deepfake para promover um cartão de crédito fictício chamado "Blue Bird". E em fevereiro de 2025, segundo outro levantamento da Agência Lupa, um deepfake da apresentadora Angélica foi usado para aplicar um golpe de "valores a receber", prometendo à vítima um dinheiro esquecido que bastaria reivindicar em um formulário.
O padrão que se repete em todos esses casos brasileiros é o mesmo descrito na seção anterior sobre a mecânica do golpe: rosto conhecido, promessa financeira simples de entender, e um funil de conversão pago que se comporta como uma campanha de marketing legítima. A diferença entre esses casos e um golpe de phishing genérico é justamente o rosto por trás dele, que empresta uma credibilidade que o golpista jamais conseguiria construir sozinho.
O Custo Reputacional Além do Prejuízo Financeiro Direto
O prejuízo mais visível desse tipo de golpe é o financeiro, sofrido por quem acreditou na oferta fabricada e perdeu dinheiro. Mas existe um segundo custo, menos discutido e igualmente concreto, que recai sobre o executivo, a celebridade ou a marca cuja imagem foi usada sem autorização. Cada novo golpe atribuído a um rosto público desgasta a confiança que o público deposita nesse nome, mesmo quando a pessoa não teve nenhuma participação na fraude, e obriga apresentadores como Marcos Mion, Ratinho e Angélica a emitir desmentidos recorrentes, um trabalho de gestão de crise que consome tempo e atenção da própria vítima indireta do golpe.
O dano de uma narrativa falsa também pode ultrapassar o âmbito de uma fraude individual e chegar a um efeito sistêmico. Em 22 de maio de 2023, uma imagem falsa gerada por inteligência artificial mostrando uma suposta explosão no Pentágono viralizou depois de ser compartilhada por contas verificadas nas redes sociais, e chegou a derrubar momentaneamente o índice S&P 500, antes que a informação fosse desmentida. Nenhum golpista lucrou diretamente com aquele episódio específico, mas ele ilustra bem o ponto central deste artigo: uma narrativa falsa convincente, apoiada em conteúdo sintético, pode causar dano real mesmo sem nenhuma fraude financeira direta por trás dela, o que reforça por que monitoramento e capacidade de resposta rápida importam tanto quanto a prevenção da fraude em si.
Como Monitorar e Reagir
A defesa mais eficaz contra esse tipo de golpe não é impedir que alguém produza um deepfake, isso está fora do controle de qualquer executivo ou empresa, é reduzir o tempo entre a publicação do conteúdo falso e a sua detecção. Esse é o objetivo do monitoramento contínuo de menções à marca, a executivos e a domínios com grafia semelhante, prática que detalhamos no nosso guia de análise de presença digital, que trata de como mapear exposição pública e uso indevido de imagem antes que o dano se consolide.
Para executivos e lideranças que já têm alguma exposição pública, o risco de ter a própria imagem usada em golpe de endosso fabricado se soma a outros riscos de presença digital executiva, tema que aprofundamos no artigo sobre segurança de presença digital executiva em PMEs. Quando o conteúdo falso já está circulando, a resposta segue uma sequência relativamente simples: documentar o material com prints e URLs, notificar a plataforma para solicitar remoção, publicar um desmentido oficial pelos canais verificados do próprio executivo ou da empresa, e buscar orientação jurídica sobre medidas cabíveis contra o uso indevido de imagem e voz.
Checklist de Prevenção e Resposta
Um checklist prático, aplicável tanto a executivos quanto a empresas com marcas expostas publicamente, ajuda a organizar a prevenção e a resposta a esse tipo de ataque sem depender de conhecimento técnico aprofundado:
- Monitorar continuamente menções à marca e a executivos em redes sociais e domínios com grafia semelhante ao oficial;
- Manter um canal oficial de comunicação bem divulgado, para que desmentidos tenham um lugar óbvio de referência;
- Orientar equipes de marketing e jurídico com um protocolo pronto de notificação de plataformas para remoção de conteúdo;
- Treinar o público interno e, quando aplicável, clientes, sobre como reconhecer sinais de deepfake, como assinatura labial imperfeita e urgência excessiva na oferta;
- Revisar periodicamente, junto ao programa de conscientização contra engenharia social da empresa, se o tema de deepfake de endosso já está incluído no treinamento;
- Ter um passo a passo jurídico pronto, sem precisar improvisar, para os casos em que a imagem de um executivo for usada sem autorização.
Sua marca ou seus executivos estão monitorados contra deepfake e fake news?
Ajudamos empresas a monitorar menções à marca e a executivos, detectar uso indevido de imagem em golpes de endosso fabricado e estruturar um protocolo de resposta rápida antes que o dano reputacional se espalhe.
Fale com um EspecialistaPerguntas Frequentes
Sim, configura estelionato e outros crimes correlatos. Além do prejuízo de quem cai no golpe, a pessoa cuja imagem e voz foram usadas sem autorização também sofre dano reputacional, mesmo não tendo nenhuma relação com a fraude.
Alguns sinais ajudam: piscar de olhos pouco natural, sincronia labial imperfeita, áudio com timbre robótico ou cadência estranha, urgência excessiva para investir ou clicar, e o link de destino fora do domínio oficial da marca ou do veículo de comunicação citado.
Porque a confiança que o público já deposita nessas figuras reduz o ceticismo natural da vítima diante da oferta. É engenharia social usando a reputação alheia como atalho de credibilidade, o golpista não precisa convencer do zero, só precisa emprestar um rosto conhecido.
No BEC (fraude de pagamento corporativa), o alvo é um funcionário interno, que recebe uma instrução falsa e autoriza uma transferência dentro da própria empresa. Aqui o alvo é o público em geral, e a narrativa falsa é monetizada em massa, através de anúncios pagos e sites clonados, sem nenhum funcionário envolvido.
Documentar o conteúdo com prints e URLs, notificar a plataforma onde o vídeo ou anúncio está circulando para pedir remoção, publicar um desmentido oficial pelos canais verificados, buscar orientação jurídica sobre medidas cabíveis, e reforçar o monitoramento para detectar novas ocorrências mais rápido.
Monitoramento não impede que alguém crie o deepfake, mas reduz drasticamente o tempo entre a publicação do conteúdo falso e a detecção pela empresa ou pelo executivo, o que permite agir e notificar plataformas antes que o golpe viralize e alcance um número muito maior de vítimas.
Conclusao
O golpe de endosso fabricado com deepfake já deixou de ser um cenário hipotético, os casos de Marcos Mion, Ratinho, Rodrigo Faro e Angélica no Brasil, e de Elon Musk e Martin Lewis fora do país, mostram um padrão consolidado que combina vídeo sintético, anúncio pago e site clonado em um funil de conversão eficiente. O prejuízo não fica restrito à vítima que perde dinheiro, ele se estende ao executivo ou celebridade que precisa gerir um desmentido recorrente, e pode, em casos extremos, gerar dano reputacional sistêmico mesmo sem fraude financeira direta por trás. Nenhuma empresa ou executivo consegue impedir que um golpista produza esse conteúdo, mas monitoramento contínuo e um protocolo de resposta já definido reduzem drasticamente o tempo de exposição antes que o dano se espalhe.
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