O que são ontologias e por que são importantes na segurança da informação

No cenário atual de cibersegurança, a capacidade de organizar, integrar e compartilhar conhecimento de forma estruturada se tornou essencial para enfrentar ameaças cada vez mais complexas. Entre as ferramentas que mais contribuem para esse avanço estão as ontologias: estruturas que permitem que diferentes sistemas, equipes e profissionais tenham uma compreensão comum sobre um mesmo domínio.

Esse alinhamento é crucial para a atividade de inteligência de ameaças, especialmente quando diferentes equipes (SOC, Red Team, Blue Team, GRC) e ferramentas (SIEM, SOAR, EDR) precisam atuar de maneira coordenada e eficiente.

Definição

Ontologias são modelos estruturados que organizam conceitos, termos e relações dentro de um determinado domínio. Em segurança da informação, elas ajudam a criar um vocabulário comum, permitindo que dados de diferentes fontes possam ser agregados, interpretados e comparados de forma mais eficaz.

Ao padronizar o conhecimento, ontologias fortalecem processos de análise, colaboração, investigação e resposta a ameaças.

Ontologias permitem que ferramentas e analistas falem a mesma língua, reduzindo erros de interpretação e acelerando a resposta a incidentes.

Ontologia vs Taxonomia: qual a diferença

É comum confundir ontologia com taxonomia, mas há diferenças importantes entre os dois conceitos:

Aspecto Taxonomia Ontologia
Estrutura Hierárquica (árvore) Grafo com múltiplas relações
Foco Classificação de categorias Conceitos, relações e regras
Exemplo Malware > Ransomware > Crypto Ransomware usa Técnica X, atribuído ao Grupo Y
Expressividade Limitada Rica em semântica

O MITRE ATT&CK, por exemplo, é mais que uma taxonomia: ele define relações entre táticas, técnicas, grupos de ameaça e softwares maliciosos, funcionando como uma ontologia prática para cibersegurança.

Padronização do conhecimento e redução de ambiguidades

No trabalho de segurança da informação, cada equipe ou ferramenta pode chamar um mesmo fenômeno por nomes diferentes. Um analista pode registrar "movimentação lateral", enquanto outro usa "lateral movement" ou "propagação na rede". Essa falta de uniformidade dificulta análises consistentes.

A ontologia resolve isso ao:

  • Definir conceitos de maneira clara e não ambígua
  • Estabelecer relações entre termos e entidades
  • Organizar cenários de ameaça, atores e métodos
  • Permitir que sistemas e analistas falem a mesma língua

Benefício direto

Com um vocabulário padronizado, o fluxo de informações entre SIEM, SOAR, plataformas de threat intelligence e equipes de resposta se torna mais fluido e confiável, reduzindo erros de interpretação e melhorando a qualidade das análises.

Melhoria da análise de dados e identificação de padrões

Ontologias possibilitam integrar dados provenientes de diversas fontes, como:

  • Logs de sistemas e aplicações
  • Alertas de ferramentas de segurança (EDR, IDS/IPS)
  • Feeds de threat intelligence
  • Relatórios de incidentes anteriores
  • Dados de vulnerabilidades (CVE, CWE)

Esse cruzamento aprimora a visão situacional, permitindo análises mais profundas e conectadas. No contexto de detecção de ameaças, ontologias ajudam a:

  • Correlacionar eventos aparentemente desconexos
  • Identificar atividades suspeitas com base em padrões conhecidos
  • Mapear comportamentos de adversários usando frameworks como ATT&CK
  • Prever comportamentos de risco com base em TTPs documentados

Com ontologias, a inteligência consegue atuar de forma mais proativa, antecipando ameaças e fortalecendo a postura de segurança.

Aumento da cooperação entre equipes e ferramentas

Um dos maiores desafios em segurança da informação é integrar diferentes equipes e ferramentas que possuem sistemas, procedimentos e bases de dados próprios. Ontologias facilitam essa integração ao proporcionar:

  • Compartilhamento de conhecimento de forma consistente entre SOC, Red Team e Blue Team
  • Intercâmbio de informações em tempo real entre ferramentas (SIEM, SOAR, TIP)
  • Coordenação mais eficiente em operações de resposta a incidentes
  • Integração com parceiros externos usando padrões como STIX/TAXII

Exemplo prático: Em uma resposta a incidente, uma ontologia bem estruturada garante que o SOC, a equipe de forense e a gestão tenham acesso às mesmas interpretações e compreensões da situação, fortalecendo respostas rápidas e estratégias de mitigação.

Tomada de decisão mais rápida, precisa e baseada em dados

Quando ontologias são integradas a sistemas de apoio a decisão, analistas e gestores conseguem:

  • Identificar ameaças de forma mais objetiva e contextualizada
  • Simular cenários de ataque e defesa
  • Avaliar impactos potenciais de diferentes vetores
  • Escolher estratégias de resposta mais eficazes
  • Priorizar vulnerabilidades com base no contexto de ameaças

A organização do conhecimento reduz ruídos informacionais, acelera a análise e contribui para tomadas de decisão mais seguras e fundamentadas.

Análises avançadas

Ontologias possibilitam análises avançadas como detecção de padrões, previsão de comportamentos e correlação de eventos que a primeira vista não parecem relacionados, mas que em conjunto revelam uma campanha de ataque em andamento.

Frameworks e padrões que utilizam ontologias

Diversos frameworks e padrões da indústria de segurança utilizam conceitos ontológicos para estruturar conhecimento:

MITRE ATT&CK

Base de conhecimento de táticas, técnicas e procedimentos (TTPs) de adversários. Define relações entre técnicas, grupos de ameaça, softwares e mitigações.

  • 14 táticas que representam objetivos de adversários
  • Centenas de técnicas e subtécnicas documentadas
  • Mapeamento de grupos de ameaça conhecidos

STIX/TAXII

Padrões para representação (STIX) e transporte (TAXII) de informações de threat intelligence. STIX define objetos como Indicator, Malware, Threat Actor e suas relações.

  • Formato estruturado para compartilhamento de IOCs
  • Relações explícitas entre objetos de inteligência
  • Adotado por plataformas de TI globalmente

CAPEC, CWE e CVE

Catálogos que organizam padrões de ataque (CAPEC), fraquezas de software (CWE) e vulnerabilidades específicas (CVE) com relações entre si.

  • CWE lista fraquezas que podem levar a vulnerabilidades
  • CVE identifica vulnerabilidades específicas
  • CAPEC descreve padrões de ataque que exploram fraquezas

NIST Cybersecurity Framework

Framework que organiza funções de segurança (Identify, Protect, Detect, Respond, Recover) com categorias e subcategorias inter-relacionadas.

Treinamento e capacitação contínua

Ontologias também são ferramentas valiosas para programas de formação em segurança da informação, pois:

  • Garantem consistência nos conceitos ensinados
  • Padronizam procedimentos e metodologias de análise
  • Facilitam o aprendizado de novos analistas
  • Oferecem base sólida para cenários de simulação e exercícios
  • Criam linguagem comum entre profissionais de diferentes níveis

Como ontologias podem ser atualizadas constantemente, elas acompanham as mudanças no cenário de ameaças, mantendo os profissionais alinhados com as melhores práticas e técnicas mais recentes.

A evolução contínua e a importância estratégica

O campo da segurança da informação está em transformação permanente, com novas técnicas de ataque, vulnerabilidades e ameaças surgindo continuamente. Ontologias são flexíveis e expansíveis, o que permite:

  • Incorporar novos tipos de dados e fontes de inteligência
  • Adicionar novos domínios do conhecimento (cloud, IoT, OT)
  • Adaptar classificações conforme ameaças evoluem
  • Integrar com novas ferramentas e plataformas

Essa capacidade de atualização torna as ontologias um recurso estratégico para qualquer operação que dependa de integração, análise e resposta ágil a incidentes.

Conclusão

Ontologias são uma das ferramentas mais poderosas para modernizar e fortalecer a atividade de inteligência em segurança da informação. Elas organizam conhecimento, melhoram análises, ampliam a cooperação entre equipes e ferramentas, e oferecem suporte direto a tomada de decisão.

Ao promover uma compreensão comum entre diferentes equipes, sistemas e até organizações, ontologias contribuem para:

  • Respostas mais rápidas a incidentes de segurança
  • Análises mais precisas de ameaças e vulnerabilidades
  • Mitigação efetiva de riscos em ambientes cada vez mais complexos
  • Colaboração aprimorada entre equipes internas e externas

Para organizações que buscam elevar seu nível de maturidade em segurança, a adoção de ontologias e padrões estruturados representa um passo estratégico e indispensável.

Inteligencia Brasil

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Consultoria especializada em Segurança da Informação, Inteligência de Ameaças e Estratégia de Cibersegurança.