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Por que empresas bem estruturadas ainda sofrem incidentes
Nos últimos anos, a Segurança da Informação deixou de ser um tema exclusivamente técnico e passou a ocupar espaço nas pautas estratégicas das organizações. Ainda assim, incidentes continuam acontecendo em empresas maduras, certificadas e com investimentos significativos em tecnologia.
Isso gera uma pergunta inevitável para a diretoria:
Se temos ferramentas, processos e equipes, por que ainda somos impactados?
A resposta, na maioria dos casos, não está na ausência de controles, mas na falta de monitoramento contínuo sobre riscos silenciosos, que se acumulam ao longo do tempo e permanecem fora do radar executivo.
A ilusão do "ambiente controlado"
É comum que a diretoria receba informações como:
- "Temos firewall de última geração"
- "O antivírus está atualizado"
- "Realizamos backup diário"
- "Estamos em conformidade com políticas internas"
Essas afirmações, embora verdadeiras, não garantem segurança por si só.
O erro está em confundir:
- Implementação com governança
- Configuração inicial com acompanhamento contínuo
- Ferramentas com visibilidade real de risco
Na prática, muitos ambientes estão "seguros no papel", mas opacos na operação.
Onde os riscos realmente se acumulam
1. Eventos de segurança que não viram informação estratégica
Organizações geram milhões de eventos diariamente: tentativas de acesso, alterações de configuração, falhas de autenticação, atividades fora do padrão.
O problema não é a falta de dados, mas:
- Excesso de ruído
- Falta de correlação
- Ausência de análise por tendência
Quando eventos não são analisados de forma estruturada, ataques permanecem ativos por longos períodos e a empresa só descobre o incidente após impacto operacional.
Incidentes graves raramente começam com um alerta crítico. Eles começam com pequenos desvios ignorados. Segundo o Verizon DBIR 2025, 68% dos vazamentos levam meses para serem detectados.
Para implementar monitoramento eficaz, veja nosso guia sobre como contratar serviços de monitoramento de ameaças.
2. Acessos legítimos que não deveriam mais existir
Um dos pontos mais sensíveis - e menos discutidos em nível estratégico - é a gestão de identidades e acessos ao longo do tempo.
Situações comuns:
- Funcionários desligados com acessos ativos
- Terceiros que concluíram projetos, mas mantêm credenciais
- Contas técnicas sem dono definido
- Acessos concedidos "temporariamente" que nunca são revogados
Para atacantes, credenciais válidas são mais valiosas do que vulnerabilidades técnicas. Usar gerenciadores de senhas e revogar acessos inativos são práticas essenciais.
3. Backups tratados como garantia, não como processo crítico
"Temos backup" é uma das frases mais perigosas em Segurança da Informação.
Backup só é controle quando:
- Pode ser restaurado
- Foi testado
- Está protegido contra o mesmo incidente
- Possui tempo de recuperação compatível com o negócio
Falhas recorrentes: backups que não restauram, backups incompletos, backups criptografados junto com o ambiente, backups sem prioridade de recuperação definida.
Em muitos casos, o ataque não é o maior problema - a indisponibilidade é.
4. Privilégios excessivos e a amplificação do impacto
Ambientes corporativos tendem a acumular privilégios ao longo do tempo:
- Acessos administrativos concedidos por urgência
- Exceções operacionais nunca revisadas
- Falta de segregação adequada de funções
Quando um incidente ocorre, o impacto é maior do que o necessário, a rastreabilidade é reduzida e a resposta é mais lenta e complexa.
Privilégio excessivo não cria incidentes - ele amplia consequências.
5. Sistemas legados: o risco invisível à alta gestão
Sistemas antigos raramente aparecem em dashboards executivos, mas continuam operando, armazenando dados sensíveis e integrados a sistemas críticos.
Normalmente, esses sistemas:
- Não recebem atualizações
- Não possuem monitoramento adequado
- Não têm responsável claro
- Dependem de conhecimento concentrado em poucas pessoas
Para atacantes, ambientes legados são alvos preferenciais, não exceções.
O padrão observado em incidentes relevantes
Ao analisar incidentes corporativos relevantes, um padrão se repete:
A organização já conhecia o ponto de falha, mas não o acompanhava ativamente.
Não se trata de desconhecimento técnico, mas de:
- Falta de priorização estratégica
- Ausência de indicadores claros
- Distanciamento entre risco técnico e impacto de negócio
Perguntas que deveriam fazer parte da pauta da diretoria
Em vez de perguntar apenas "estamos seguros?", a alta gestão deveria questionar:
Checklist Executivo
- Onde estão hoje nossos maiores riscos digitais acumulados?
- Quanto tempo levaríamos para detectar um incidente relevante?
- Qual seria o impacto financeiro de 24h, 48h ou 72h de indisponibilidade?
- Nossos backups já foram testados em cenário real?
- Quem é responsável pelos sistemas críticos mais antigos?
- Quais acessos permanecem ativos por conveniência operacional?
Essas perguntas orientam decisões estratégicas, não técnicas.
O indicador que mais importa para o nível executivo
Se a diretoria precisasse acompanhar apenas um indicador, ele deveria ser:
Tempo Médio de Detecção de Incidentes (MTTD)
Quanto maior o tempo de detecção, maior o prejuízo - independentemente da tecnologia instalada.
Esse indicador influencia diretamente:
- O tamanho do impacto
- O custo de recuperação
- A exposição legal
- O dano reputacional
Segurança da Informação como tema de governança, não de TI
Empresas mais maduras tratam Segurança da Informação como:
- Parte da gestão de riscos corporativos
- Pilar da continuidade de negócios
- Elemento de confiança para clientes e parceiros
Isso exige:
- Envolvimento da alta gestão
- Discussões periódicas
- Decisões registradas e revisadas
- Visão clara de impacto e prioridade
Segurança deixa de ser um "problema técnico" e passa a ser um ativo estratégico.
Conclusão executiva
Incidentes não surgem de forma repentina. Eles amadurecem silenciosamente, em pontos ignorados, decisões adiadas e controles não acompanhados.
Organizações não falham por falta de ferramentas.
Elas falham por falta de visibilidade contínua sobre riscos conhecidos.
A maturidade em Segurança da Informação começa quando:
- O risco digital entra na agenda estratégica
- O monitoramento é contínuo, não pontual
- A decisão considera impacto de negócio
- A diretoria faz as perguntas certas
O maior risco hoje não é o ataque desconhecido. É o risco conhecido que não está sendo monitorado.