Neste artigo
O que é CRQ
CRQ (Cyber Risk Quantification) é a prática de expressar riscos cibernéticos em termos financeiros - reais, dólares, euros - em vez de escalas qualitativas como "alto/médio/baixo". O objetivo é responder perguntas como "Quanto podemos perder com um ataque de ransomware?" em valores monetários com níveis de confiança.
A mudança de paradigma
Qualitativo: "Risco alto de ransomware. Recomendo investir em backup."
Quantitativo: "Estimamos 15% de probabilidade de ransomware em 12 meses, com perda esperada de R$ 2.3M. Investimento de R$ 400k em backup reduziria perda esperada para R$ 800k - ROI de 275%."
Por que Quantificar Risco
Comunicação executiva
CFOs e boards entendem dinheiro. "Risco alto" não significa nada para quem gerencia portfolios de investimento - "R$ 5M de exposição" sim.
Decisões de investimento
Quantificação permite calcular ROI de controles de segurança. Se um firewall de R$ 200k reduz perda esperada de R$ 1M para R$ 300k, o ROI é claro.
Priorização baseada em dados
Em vez de priorizar por "gut feeling" ou CVSS score, priorize pelo impacto financeiro esperado.
Seguro cibernético
Seguradoras usam modelos quantitativos. Entender sua própria exposição ajuda a negociar prêmios e coberturas adequadas.
Metodologia FAIR
FAIR (Factor Analysis of Information Risk) é o padrão mais usado para CRQ. É um modelo de decomposição que quebra risco em fatores mensuráveis.
Fórmula fundamental
Decomposição FAIR
- LEF (Loss Event Frequency): Quantas vezes o evento de perda ocorre por ano
- TEF (Threat Event Frequency): Frequência de tentativas de ataque
- Vulnerability: Probabilidade de ataque ser bem-sucedido
- LM (Loss Magnitude): Quanto custa cada evento
- Primary Loss: Custo direto (resposta, recuperação, resgate)
- Secondary Loss: Custo indireto (reputação, multas, processos)
Exemplo prático: Ransomware
Estimando risco de ransomware para empresa média:
- TEF: 10 tentativas de phishing por dia que poderiam levar a ransomware
- Vulnerability: 2% de chance de sucesso (controles existentes)
- LEF resultante: ~0.2 eventos por ano (10 x 365 x 0.02 / 365)
- Primary Loss: R$ 500k - R$ 2M (downtime, recovery, ransom)
- Secondary Loss: R$ 200k - R$ 1M (reputação, notificação LGPD)
- Risco anual: 0.2 x (R$ 700k a R$ 3M) = R$ 140k a R$ 600k/ano
Simulação Monte Carlo
Em vez de usar valores pontuais, usamos distribuições de probabilidade e simulamos milhares de cenários para obter uma distribuição de resultados possíveis.
Por que Monte Carlo?
- Captura a incerteza nos inputs (não sabemos exatamente a frequência)
- Gera distribuição de resultados (percentis, VaR)
- Permite afirmações como "90% de confiança que perda será < R$ X"
Processo básico
- Definir distribuições para cada variável (min, mais provável, max)
- Gerar milhares de amostras aleatórias de cada distribuição
- Calcular resultado para cada combinação
- Analisar distribuição de resultados
Outputs típicos
- Perda esperada (ALE): Média das simulações
- VaR 95%: Perda máxima com 95% de confiança
- Worst case: Percentil 99 ou máximo observado
- Distribuição visual: Histograma mostrando probabilidades
Implementação Prática
Fase 1: Identificar cenários
- Selecionar 5-10 cenários de risco mais relevantes
- Exemplos: ransomware, breach de dados, fraude, indisponibilidade
- Definir escopo: qual ativo/processo é afetado?
Fase 2: Coletar dados
- Frequência: Dados de incidentes internos, benchmarks de indústria, threat intel
- Magnitude: Custos de incidentes passados, estimativas de downtime, valores de dados
- Expert judgment: Quando dados não existem, use estimativas calibradas de especialistas
Fase 3: Modelar
- Definir distribuições para cada variável
- Rodar simulação Monte Carlo (10.000+ iterações)
- Validar resultados com sanity checks
Fase 4: Comunicar
- Apresentar em linguagem de negócio
- Usar visualizações (curvas de perda, comparativos)
- Mostrar impacto de controles propostos
Comece simples
Não precisa modelar tudo perfeitamente no início. Comece com estimativas "suficientemente boas" para os cenários mais críticos. Um modelo imperfeito baseado em dados é melhor que decisões baseadas em "gut feeling" sem dados.
Ferramentas para CRQ
Planilhas e código
- Excel com @RISK ou Crystal Ball: Add-ins para Monte Carlo
- Python com numpy/scipy: Simulações customizadas
- R: Pacotes estatísticos para análise de risco
Plataformas especializadas
- RiskLens: Plataforma FAIR mais conhecida
- SAFE One: CRQ integrado com gestão de risco
- Bitsight: Rating com componente quantitativo
- CyberSaint: GRC com CRQ
Open source
- FAIR-U (FAIR Institute): Ferramenta gratuita para aprender FAIR
- OpenFAIR: Implementações em Python/R
Conclusão
CRQ transforma cibersegurança de "centro de custo" para "gestão de risco de negócio". Ao expressar riscos em valores financeiros, habilitamos decisões baseadas em dados, comunicação eficaz com executivos, e justificativa clara de investimentos.
A metodologia FAIR fornece um framework estruturado e padronizado. Combinada com simulação Monte Carlo, permite capturar a incerteza inerente e comunicar resultados em termos de probabilidades e níveis de confiança.
Comece com poucos cenários críticos e itere. A precisão vem com o tempo conforme você coleta mais dados e refina o modelo. Mesmo estimativas iniciais imperfeitas são mais úteis que avaliação puramente qualitativa.
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